Se a gente olhar para a trajetória do Gorillaz, é impossível não notar que, depois de mais de duas décadas, a banda criada por Damon Albarn e Jamie Hewlett parecia ter chegado a um beco sem saída. Projetos recentes, como Cracker Island, deram a sensação de que os personagens virtuais haviam virado meros coadjuvantes para uma vitrine de feats desconexos.
Mas com o lançamento de The Mountain, nono disco de estúdio que chega sob o selo próprio da banda (Kong Studios), o jogo virou. O Gorillaz não apenas reencontrou seu foco, mas entregou o seu trabalho mais maduro, denso e coeso desde Plastic Beach, de 2010.
E o combustível para essa retomada veio de onde menos se esperava: a morte.
- Foo Fighters e Fatboy Slim são as novas atrações confirmadas do Rock in Rio 2026
- Novo álbum do Sublime: banda fecha com gravadora para 1º disco com Jakob Nowell
- 12 melhores álbuns inspirados por drogas na música
Tragédias pessoais
A origem de The Mountain é marcada por tragédias pessoais assustadoramente sincronizadas. Albarn e Hewlett perderam seus pais num intervalo de apenas dez dias, em 2024. Somado a isso, um AVC fatal sofrido pela sogra de Jamie durante uma viagem à cidade indiana de Jaipur forçou a dupla a mergulhar numa realidade até então desconhecida. Albarn foi à Índia, onde espalhou as cinzas de seu pai no místico Rio Ganges, em Varanasi, e foi brutalmente impactado pela forma como a cultura local lida com o luto. Enquanto o Ocidente foge do assunto e vê o fim da vida como um tabu irrecuperável, a filosofia indiana que abraça o renascimento e celebra a passagem tornou-se a espinha dorsal narrativa e sonora deste novo álbum.
O resultado não é um disco fúnebre ou depressivo, mas uma celebração incrivelmente vibrante e poliglota, cantada em cinco idiomas (inglês, hindi, espanhol, iorubá e árabe). Musicalmente, o álbum foge daquela mania ocidental de “samplear” ritmos exóticos de forma superficial. A banda abriu os estúdios para gravar organicamente com músicos indianos, promovendo improvisações onde o piano de Albarn esbarrava na cítara, no sarod e na flauta bansuri. A faixa-título, por exemplo, te joga nessa atmosfera logo de cara, conduzindo o ouvinte para dentro da montanha com a ajuda da lenda da flauta Ajay Prasanna.
Vozes ‘fantasmas’
Mas o grande pulo do gato de The Mountain é que ele é habitado por fantasmas. Para falar sobre a morte, Albarn foi revirar os arquivos e trouxe vozes de parceiros que já nos deixaram, dando a eles o status de guias espirituais. Ouvir a narração icônica do ator Dennis Hopper abrindo o disco é arrepiante. A ressurreição fonográfica continua com o ícone do afrobeat Tony Allen, o soul de Bobby Womack, o sarcasmo punk de Mark E. Smith cravado no ritmo contagiante de “Delirium” e até o rap agressivo de Proof costurado aos versos viscerais do jovem argentino Trueno em “The Manifesto”. É como se o Gorillaz tivesse construído uma ponte entre o mundo dos vivos e dos mortos.
E por falar nos vivos, as colaborações atuais mostram uma curadoria absurdamente afiada. O encontro histórico do ex-Smiths Johnny Marr com Paul Simonon, do The Clash, na nostálgica “Casablanca” já nasce com pinta de clássico. O punk torto do IDLES aparece com um pé no reggae em “The God of Lying”, e “Damascus” traz um encontro insano e irresistível entre o hip-hop de Yasiin Bey (Mos Def) e a música árabe de Omar Souleyman. Tudo isso embalado numa nova fase visual dos personagens: 2-D, Murdoc, Noodle e Russel fugiram da fama usando passaportes falsos e se isolaram nas montanhas, adotando cores terrosas, roupas locais e uma vibe mais contemplativa.
Alívio e catarse
O disco tem defeitos? Talvez. Se você é o fã que está esperando o próximo grande hit pop radiofônico de TikTok nos moldes de “Clint Eastwood” ou “Feel Good Inc.”, pode sair frustrado. As músicas operam mais a serviço do conjunto do que brilham isoladamente. “Orange County”, apesar de ótima com seu assovios melancólicos batendo de frente com a frase “a coisa mais difícil é dizer adeus para alguém que você ama”, não é uma canção para bombar nas rádios. Além disso, faixas mais esquisitas como “The Happy Dictator”, que traz a excentricidade sufocante do duo Sparks, podem quebrar a imersão de alguns ouvintes.
Ainda assim, ao final dos 66 minutos de duração, a sensação que fica é de alívio e catarse. The Mountain não é um disco para se ouvir no aleatório do streaming; é para ser degustado do início ao fim. É a prova definitiva de que o Gorillaz superou o rótulo de “banda de desenho animado”. No meio do luto, Damon Albarn e Jamie Hewlett reinventaram a própria dor, escalaram a montanha e acharam a vista maravilhosa.
