Quem diria que esse dia ia chegar mesmo? Depois de anos de ameaças, doenças, tretas e trocas de formação que fariam um time de futebol sentir inveja, o Megadeth resolveu puxar o plugue da tomada. Com o lançamento do autointitulado álbum Megadeth em janeiro de 2026, Dave Mustaine finalmente decidiu “sair de cena” antes que o corpo não aguentasse mais. E vou te falar: para uma banda que viveu do caos, esse final é surpreendentemente controlado — talvez até demais.
Se você está esperando uma reinvenção da roda ou um novo Rust in Peace, pode tirar o cavalinho da chuva. O que temos aqui é um Mustaine de 64 anos, ciente das limitações da idade e da saúde (o pescoço, o câncer superado e agora com problemas na mão), fazendo o que sabe fazer de melhor: ser ele mesmo.
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O som: uma viagem no tempo (sem Delorean)
O álbum funciona quase como uma coletânea de inéditas que passeia por todas as eras da banda. A abertura com “Tipping Point” é aquele cartão de visita clássico: thrash metal na veia, rápido, com riffs cortantes que mostram que a nova formação — com o finlandês Teemu Mäntysaari na guitarra — não está para brincadeira. Aliás, palmas para o Teemu. O cara teve a missão ingrata de substituir o Kiko Loureiro e, apesar de ser menos “versátil” que o brasileiro, entrega um serviço técnico impecável e coassina nove das dez faixas.
Mas o disco não vive só de velocidade. Tem muita coisa ali que grita anos 90. Músicas como “Hey, God?!” e “Puppet Parade” parecem ter saído diretamente das sobras do Countdown to Extinction ou do Cryptic Writings. É aquele metal mais cadenciado, mais “radiofônico” (se é que isso ainda existe), focado na melodia e no peso. Tem quem vá torcer o nariz e chamar de “previsível”, e tem quem vai amar a nostalgia. Eu fico no meio termo: funciona, é bem feito, mas não tem aquele perigo iminente dos velhos tempos.
Um destaque curioso é “I Don’t Care”. É o Mustaine canalizando sua vibe punk, meio Fear, cuspindo raiva sozinho na composição. É simples? É. Mas tem aquela energia de “velho rabugento gritando com a nuvem” que a gente adora nele.
O elefante na sala: Metallica
Não tem como não falar disso. O disco traz como bônus um cover de “Ride the Lightning”. Sim, aquela música. Dave finalmente gravou a faixa que ajudou a escrever há mais de 40 anos. Ficou bom? Ficou. A banda toca muito, o Dirk Verbeuren destrói na bateria, mas soa… estranho.
Parece que, mesmo no apagar das luzes, o Mustaine ainda precisa provar algo para o passado, ou talvez seja só um jeito de fechar o ciclo onde tudo começou. De qualquer forma, é uma versão competente, mas que dividiu opiniões: uns acham uma homenagem justa, outros acham que é remoer mágoa antiga sem necessidade.
O veredito final
O ponto alto emocional é, sem dúvida, “The Last Note”. É a despedida real. Quando Dave canta “I came, I ruled, Now I disappear” (Eu cheguei, eu comandei, agora eu desapareço), o negócio bate diferente. É uma faixa melancólica, autobiográfica, que quase te faz esquecer as derrapadas vocais que aparecem aqui e ali no álbum.
Olhando para a capa, com o Vic Rattlehead de terno fúnebre pegando fogo, a mensagem é clara: acabou a cerimônia. Megadeth (o álbum) não é a obra-prima da banda, mas é um encerramento honesto. É um disco seguro, polido (até demais na produção, diriam alguns), mas que honra o legado de um dos “Big 4”.
Mustaine sai de cena não como o jovem furioso expulso do Metallica, mas como um sobrevivente teimoso que construiu um império. Se esse é mesmo o fim, foi um adeus digno. Dave merece descansar.
