Crítica faixa a faixa: U2 surpreende com ‘Easter Lily’ e retoma raízes com Brian Eno

u2 easter lily ep - Fita Demo (1)Foto: Divulgação

Parece que o U2 finalmente cansou de esperar os longos ciclos da indústria fonográfica para lançar material inédito. Nesta Sexta-feira Santa (3 de abril de 2026), a banda irlandesa jogou nas plataformas digitais, totalmente de surpresa, o EP “Easter Lily”.

Apenas seis semanas após o lançamento do politizado EP “Days Of Ash”, que chegou na Quarta-feira de Cinzas, a banda fecha o período da Quaresma com uma coleção de seis músicas profundamente pessoais, introspectivas e que marcam, segundo a crítica especializada, um dos melhores momentos da banda nas últimas décadas.

Por que o U2 lançou dois EPs tão próximos: Days of Ash e Easter Lily

A estratégia de lançar dois EPs em menos de dois meses não é por acaso. O U2 utilizou o calendário cristão — da Quarta-feira de Cinzas (“Days Of Ash”) até a Sexta-feira Santa (“Easter Lily”) — para criar um arco narrativo.

Enquanto o primeiro EP era barulhento, focado no caos do mundo exterior, na guerra e em ativistas mortos, “Easter Lily” olha para dentro. É um refúgio. O próprio Bono explicou que a banda passou a fazer perguntas difíceis a si mesma: “Até onde estamos dispostos a lutar pela amizade? Conseguirá a nossa fé sobreviver à distorção do significado que esses algoritmos adoram premiar?”. O próprio título do EP é uma homenagem ao álbum Easter, lançado por Patti Smith em 1978, que deu muita esperança a Bono quando ele ainda nem tinha 18 anos.

Crítica faixa a faixa de ‘Easter Lily’: o U2 encontrou sua redenção?

O U2 passou os últimos anos preso a álbuns feitos sob medida para os estádios (ou para enfiar à força em iPhones), mas “Easter Lily” mostra uma banda despida de seus maiores vícios recentes. A crítica da revista Mojo chegou a chamar o trabalho de a “melhor coleção de canções da banda em décadas”.

Abaixo, um mergulho nas seis faixas:

Song For Hal

A faixa de abertura traz The Edge assumindo os vocais principais de forma emocionante, algo que sempre funciona muito bem no U2 (vide Numb e Van Diemen’s Land).

  • Quem é Hal Willner? A música é uma homenagem ao icônico produtor musical e amigo da banda, Hal Willner, que faleceu em abril de 2020 por complicações da Covid-19 e completaria 70 anos logo após a Páscoa.

In A Life

Uma canção sobre amizade com uma roupagem biográfica que remete aos primeiros dias do U2 tentando a sorte e lutando por um contrato de gravação em Londres. Tem o apelo clássico e animado da banda.

Scars

Curiosamente, essa faixa começou como um projeto de Bono e The Edge com o DJ Martin Garrix. No EP, ela se tornou uma ode à aceitação de nossas imperfeições, empurrada por uma linha de baixo marcante de Adam Clayton.

Resurrection Song

Aqui o U2 abraça o uso de sintetizadores profundos misturados com a clássica guitarra estridente de The Edge. O grande destaque, no entanto, é o retorno visceral de Larry Mullen Jr. na bateria, que soa incandescente após se recuperar de uma recente cirurgia no pescoço.

Easter Parade

Uma faixa devocional sobre renascimento, construída sobre uma base de sintetizadores e que cresce até um refrão onde Bono clama “Kyrie eleison”. Tem cara de que vai ser gigantesca ao vivo.

COEXIST (I Will Bless The Lord At All Times?)

O encerramento do EP traz o velho colaborador Brian Eno criando a paisagem sonora. É uma canção de ninar dolorosa escrita para pais de crianças que crescem em zonas de guerra. Alguns críticos acharam os sussurros estilo “Leonard Cohen” de Bono um pouco assustadores, mas o minimalismo percussivo ao estilo Bon Iver transforma a faixa no momento mais inventivo do disco.

O retorno da Revista ‘Propaganda’

Junto com a música, a banda ativou a nostalgia dos fãs mais antigos. Há exatos 40 anos (fevereiro de 1986), o U2 lançava a primeira edição da fanzine Propaganda.

Acompanhando o lançamento de “Easter Lily”, o grupo disponibilizou uma edição digital especial de 54 páginas da revista. O material está recheado de conteúdo exclusivo: letras de músicas, notas escritas por The Edge, reflexões de Adam Clayton sobre sua jornada de recuperação, um papo profundo entre Bono e o frade franciscano Richard Rohr, e fotos de bastidores tiradas pelo próprio Larry Mullen Jr.

Quando sai o novo álbum do U2?

Se você está adorando essa fase introspectiva dos dois EPs recentes, prepare-se para uma curva acentuada. O U2 confirmou que essas músicas são projetos isolados e não farão parte do próximo disco de estúdio da banda.

Bono já avisou que o próximo álbum de inéditas, o sucessor de Songs of Experience (2017) e previsto para o final de 2026, será “barulhento, caótico e exageradamente colorido”. A banda deixou claro que o novo disco está sendo forjado especificamente para ser tocado ao vivo, usando o rock n’ roll vibrante como um ato de resistência contra as atrocidades que assistimos nas telas dos nossos celulares.

Enquanto os shows de estádio não chegam, “Easter Lily” cumpre maravilhosamente seu papel: é um lembrete caloroso, familiar e honesto de que, por trás da máquina gigantesca chamada U2, ainda existem quatro amigos dispostos a escavar os próprios sentimentos para entender o mundo.

By Wil Spiler

Formado em Design Gráfico e pós-graduado em Jornalismo e Marketing Digital, apaixonado pela cultura em geral e por esportes. Trabalhei em grandes redações como TV Globo, GloboNews, Lance!, SRzd, entre outras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *